Lula e Flávio Bolsonaro querem exército digital para conquistar as redes antes das eleições
Ombro a ombro na disputa pelo Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) têm uma mesma aposta para ganhar terreno na reta final das eleições: um exército digital voluntário nas redes sociais.
Frente a uma disputa que se anuncia acirrada, ambos os candidatos lançaram iniciativas, inéditas em escala no país, para impulsionar a mobilização de apoiadores e espalhar sua narrativa na internet.
Os projetos expõem a crescente importância das redes na política brasileira, mas geram dúvidas sobre o cumprimento de regras eleitorais.
"A cavalaria chegou. Venha fazer parte desse exército que vai mudar a história do nosso país", convidou Gustavo Gayer, deputado pelo Partido Liberal (PL) e aliado de primeira linha de Flávio Bolsonaro, ao divulgar a plataforma Direita Já.
A iniciativa, lançada pelo PL em julho, é composta por um site e por grupos de WhatsApp onde apoiadores recebem diariamente "munição visual" para replicar em suas redes e ajudar na campanha do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O site funciona como um menu de posts prontos, onde usuários podem filtrar por rede social preferida ou categoria. A principal, com cerca de 200 conteúdos, reúne "críticas ao PT", com acusações envolvendo segurança pública, o custo dos alimentos e suspeitas de corrupção.
Um único vídeo, que destaca inconsistências em uma fala do atual presidente, foi replicado separadamente por mais de 500 apoiadores, apurou a AFP. Segundo a própria plataforma, a iniciativa já gerou mais de 50 milhões de interações.
- Direita Já x Porta-vozes de Lula -
Em busca de um quarto mandato, Lula também se voltou às redes. "Vamos à luta pelo computador, pelo celular", pediu em uma transmissão ao vivo com apoiadores em setembro. "Se vocês estiverem nesse exército, pode ficar certo, dia 4 nós ganharemos as eleições".
O presidente estava promovendo a iniciativa Porta-vozes de Lula, que também tenta estimular a participação de eleitores na internet.
Através de grupos de WhatsApp, mais de 140 mil pessoas recebem missões diárias para fortalecer a mensagem do petista compartilhando posts que promovem propostas de governo, ou criticam seu principal adversário.
O objetivo, explicou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, é vencer a batalha em um ambiente em que a direita tradicionalmente lidera com folga.
"É preciso ter humildade de reconhecer. Frequentemente nos embates de rede, eles têm ganho", disse no evento de lançamento da iniciativa, em junho. "Se eles unificam a narrativa e conseguem pautar o debate público, nós também podemos".
A estratégia reflete uma mudança no modelo tradicional de campanha, explica Arthur Ituassu, professor de Comunicação Política da PUC-Rio. Se antes o maior foco era em fazer alianças nacionais para conseguir mais tempo de exposição na televisão, hoje "as redes sociais são fundamentais".
"O estímulo a essa mobilização visa chegar ao eleitor indeciso, que é o que vai efetivamente decidir a eleição", apontou o professor.
A tendência também aparece em campanhas menores, como a de Renan Santos, do partido Missão, que lançou um aplicativo onde apoiadores ganham pontos e disputam posicionamentos em um ranking ao compartilhar conteúdos do candidato.
"Faço isso porque quero colaborar para a mudança do país', contou à AFP João Victor, estudante universitário de 25 anos. Atualmente em primeiro lugar no ranking de Renan Santos, ele reconheceu que a visibilidade que ganha com o aplicativo também motiva seu engajamento.
A AFP tentou conversar com apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro, mas eles não responderam, ou se recusaram a comentar afirmando que não estavam "fazendo nada de errado".
- Redes de ataques? -
As iniciativas desencadearam questionamentos jurídicos logo após o lançamento.
Em ações apresentadas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as equipes de Flávio Bolsonaro e Lula trocam acusações de que os projetos serviriam para burlar regras e impulsionar propaganda eleitoral negativa de forma coordenada.
Procuradas, as duas campanhas informaram que cumprem os limites da legislação eleitoral. As ações seguem em tramitação no TSE.
Nahomi Helena de Santana, advogada eleitoralista, explica que a mobilização digital organizada de apoiadores não é proibida, mas que os projetos podem ser considerados ilícitos se for constatado que há alguma forma de "vantagem econômica" em troca das publicações — conceito que ainda deve ser melhor delimitado pelo TSE.
Também seria irregular se os projetos fossem usados para difundir conteúdos com desinformação, calúnia ou ofensas à honra dos candidatos.
"Se existir uma rede organizada para distribuição de conteúdo eleitoral ilícito, a responsabilização pode ser aumentada", opinou a especialista.
A.Slezak--TPP